Saturday, April 7, 2007

Querendo entender

Querendo entender


Quando criança, compartilhava o mesmo quarto que minha avó Raquel. Ela nasceu numa aldeia judaica na Polônia, mas só falava idiche e mal o portugues. Minha avó trazia sempre consigo a última carta que havia recebido de suas irmãs. Seus pais tinham nove filhos vivos antes da segunda guerra, muitos já casados e com seus respectivos filhos. Depois da segunda guerra, só o irmão mais novo, que era solteiro deu sinal de vida e veio ao Brasil à sua procura. Todos os demais haviam sido gaseificados pelos nazistas.

Eu devia ter uns oito anos de idade quando ela me perguntou pela primeira por que esta desgraça havia acontecido. Eu lhe explicava, usando como argumento a História da ascenção de Hitler ao poder. Eu lia muitos livros sobre a Segunda Guerra Mundial e cada vez minhas respostas ficavam mais elaboradas. Porém, quando acabava de dar minha explicação ela perguntava de novo: mas por que? Prometi a mim mesmo que um dia iria encontrar uma explicação para os fatos e dar a devida resposta a ela. Ela morreu quando eu tinha 14 anos e nunca lhe consegui formular uma resposta que não terminasse com a pergunta dela, “mas por que?”

Nasci em 1954, o mais novo e o único homem entre três filhos. Meu pai era dentista e professor universitário. Minha mãe, dona de casa. Minha irmã do meio nasceu com um problema na vista, que a levou a várias cirurgias e inúmeros exercícios, que tinha que fazer em casa com o auxílio de minha mãe. Meus pais acabaram comprando o serviço de uma jovem negra para cuidar de mim, a Ana. Ela era a pessoa mais próxima de mim quando criança. Começou a namorar o funcionário da Prefeitura que vinha pegar o lixo na porta de nossa casa e eu participava deste namoro indo junto com eles à noite para umas caminhadas na vizinhança. O jovem pretendente vasculhava os lixos que recolhia em busca de selos que trazia para a minha coleção recém iniciada. À noite, quando vinha namorar, eu recebia satisfeito os presentes. Gostava muito do casal.

Um dia eles se casaram e perdi minha principal referência com o mundo externo. Consegui um dia que minha mãe me levasse para visitá-los. Eles já tinham um filho e viviam em um lugar muito pobre em condições muito modestas. Até hoje me lembro deste dia. Como pode a pessoa que me criou não poder oferecer as mesmas condições que eu tive para criar seus próprios filhos? Por que uma jovem tem que vender seus serviços para criar os filhos dos outros?

Entrei na adolescência disposto a encontrar respostas do por que do Holocausto e do por que de tanta desiguladade e diferença de oportunidades na sociedade.