Saturday, April 7, 2007

Família

Família

Em nossas vidas precisamos contribuir para melhorar a humanidade, melhorar nosso País, melhorar nossa família e nos tornarmos indivíduos melhores. Nem sempre temos oportunidades de atuar em todas estas frentes ao mesmo tempo.

Quando tinha 14 anos, tive uma discussão com uma amiga de Colégio sobre quem era o melhor compositor: Caetano Veloso ou Geraldo Vandré. Eu achava que era Vandré pelo poder de mobilização da letra de suas músicas. Ela achava que era Caetano pela qualidade e inovação de suas músicas. Quando cheguei em casa comecei a chorar sem parar. Meu pai quiz saber o que tinha acontecido. Quando lhe contei que estava muito triste porque minha amiga não concordava comigo pois achava o Caetano melhor que o Vandré, ele me disse: “Davi, você está chorando por que você está apaixonado por esta menina. É só isto”. Parei de chorar. Tinha acabado de descobrir o amor.

Aos 17 anos, ainda no Colégio, me apaixonei de novo e desta vez fui correspondido. Eu a admirava muito. O problema é que ela cresceu mais rápido que eu. Ela quiz casar quando tínhamos 20 anos, idade que ela já trabalhava e se auto-sustentava, mas eu morava na casa dos meus pais que ainda me davam de comer e lavavam minha ropa. Ela acabou casando com outro. Eu fiquei muito deprimido e comecei a fugir de mulheres “admiráveis”, que poderiam me largar a qualquer momento. Estas seriam somente minhas amigas.

Acabei casando cedo mesmo assim. Tinha 24 anos, minha esposa 22. Com 25 anos já era pai. Nesta idade o que eu enxergava do mundo era que minha esposa tinha que ser bonita, uma boa mãe e uma companheira de luta. E Elisia era tudo isto e eu achava que ela não me abandonaria a qualquer momento. Com 32 anos me separei, e depois me casei de novo com a mesma companheira aos 34. Foi um período no qual consegui me aproximar mais dos meus filhos, mas não consegui mudar meu padrão de relacionamento com as mulheres. Se não me reconciliasse com Elisia, ia acabar casando com outra mulher para repetir o mesmo relacionamento de tipo egoísta-generoso.

Porém, com o passar dos anos, nossas diferenças se acentuaram, nossas solidões dentro do casamento aumentaram e na fase de adolescência de nossos filhos passamos a não trabalhar unidos para educá-los, apoiá-los e reprimi-los. Após 20 anos, e com 44 anos de idade, nosso casamento acabou.

Resolvi voltar para a procura da mulher “admirável”. A primeira que encontrei após minha volta ao Brasil em 2000 eu me apaixonei. Era minha chefe. Propus a ela um casamento no qual eu ficaria em casa para cuidar de filhos enquanto ela segueria sua carreira profissional. Ela me respondeu: “quem disse que eu quero um homem como este?” Mas ela me deu uma chance. Por ocasião da doação de meu fígado ao David ela resolveu me apoiar com afeto. Logo após a cirurgia, quem ia me visitar me encontrava com a barriga toda cortada (aproximadamente 40 pontos) e um sorriso nos lábios. Dizia a todos: “perdi meio fígado mas ganhei um coração.” Quando comecei a melhorar, este relacionamento acabou. Fiquei muito triste e de novo prometi para mim não mais se envolver com mulheres “admiráveis”.

Quando fui para a Anvisa, trabalhei em uma sala cuja porta dava para um corredor. No fim do corredor havia uma outra porta e uma morena gracinha trabalhando lá dentro. Livia estava disponível, era amorosa, era uma companheira de luta e eu não achava que ela me largasse de repente. Vivemos juntos por 4 anos. Eu a tratava bem com a esperança que ela dessitisse de querer ter filhos. Ela me tratava bem com a esperança de que um dia eu aceitasse ter filhos com ela. Com o tempo ela cansou de investir e esperar. Perdi a convivência com uma pessoa alegre que acordava dizendo “Bom dia luz do dia!”

Solteiro de novo, uma amiga “admirável” me conta que uma pessoa “admirável” da Anvisa tinha acabado de se separar. No dia seguinte encontrei esta pessoa no elevador. Só eu e ela e três andares para dizer algo. Olhei para ela e disse: “acho que temos algo em comum”. Adélia sabia que eu estava separado e ficou curiosa para saber o quanto eu sabia da situação dela, que ela procurava manter com discrição. Começamos a conversar e não paramos até hoje.

Redescobri a família e resolvi investir nela. Em 2006, eu e Adélia resolvemos voltar para o Canadá onde moram meus filhos. Vou tentar encontrar um jeito de sobreviver por aqui. Pela primeira vez estou tendo a oportunidade de ter um relacionamento entre iguais com minha parceira “admirável”, que está afim de se envolver com meus filhos. Estou tentanto ser uma pessoa melhor, menos egoísta. Espero, através de meu exemplo, ajudar meus filhos a terem sucesso na construção de suas futuras famílias. Acho que para um relacionamento a longo prazo e compartilhado, admiração mútua é fundamental. A relação entre desiguais (um generoso e outro egoísta), pode dar menos trabalho, mas leva a duas solidões.

Um assunto ainda não resolvido com meus filhos é a questão da religião. Sou um judeu não-judeu, ou seja de etnia e cultura judaica, mas que fêz a opção de sair da tribo e se misturar na Humanidade. A mãe de meus filhos é católica. Se Deus criou o Homem ou se o Homem criou Deus, para mim Deus existe seja qual for a opção do início da frase. Religião quem criou foi o Homem não foi Deus. Se Deus tivesse criado a religião não teria ocorrido guerras em nome das religiões. A religião que se julga melhor que as outras só serve para dividir a Humanidade. Com estes princípios, qualquer religião é válida, pois Deus é único e a moral em todas as religiões monoteístas são muito parecidas. Mas não seguir nenhuma religião é válido também, desde que se siga a moral comum a todas as religiões: respeito pelo próximo, amor a família, humildade e serenidade. Como há muita hipocrisia entre pessoas que praticam ritos religiosos e sociais (não praticam o que falam), achei que minha conduta moral e minha transparência seriam suficientes para suprir a necessidade de religião de meus filhos.

Mas eles não vivem isolados das pessoas e ser de uma religião assim como de um grupo étnico facilita a vida em comunidade que é tão importante quanto a família para a formação dos jovens.

Propus à Elisia que optássemos por uma terceira religião e descobri o Bahai. Descobri três princípios da religião Bahai que adoto até hoje como meus:1) Há uma diferença entre “paz maior” e “paz menor”. A “paz maior” é a luta por movimentos que unificam a humanidade: feminismo, ecologia, sanitarismo, paz, etc.. A “paz menor” é a luta pelo poder político que divide a humanidade pois a vitória de um passa pela negação das virtudes do outro. Um tem que destruir o outro para chegar e se manter no poder. No Bahai, seus adeptos só devem participar da “paz maior”. 2) Toda religião é histórica: Deus, através da voz ou escritos dos Profetas, procura elevar a humanidade que vive em um determinado espaço e tempo a um novo estágio de civilização. Alcançado este estágio, novos Profetas surgirão com novas mensagens para os novos tempos. 3) Há très estágios na vida: o primeiro é na barriga da mãe quando estamos nos preparando fisicamente para a etapa seguinte. Na barriga da mãe não temos idéia do que seja a etapa seguinte. O segundo estágio é o que estamos vivendo e visa a nos preparar espiritualmente para a etapa seguinte. Assim como na barrriga da mãe não sabemos o que nos espera depois da morte, não cabe especulações a respeito, mas se desenvolvermos nossas virtudes nesta etapa, melhor estaremos preparados para o estágio seguinte.

Estes princípios religiosos me dão tranquilidade e direcionamento. Mas não foram suficientes nem para a Elisia e nem para meus filhos. A Elisia acabou assumindo a “brasilianidade”, que como diz um gaúcho: “aqui no exterior até nós gaúchos nos sentimos brasileiros”. Meus filhos estão prontos para praticar a religião daqueles com quem irão casar. Fazem isto para poder oferecer a seus futuros filhos uma comunidade de referência que dizem ter faltado em suas vidas. Talvez o fato deles terem sido jovens em um ambiente menos cosmopolita do que São Paulo, tenha diminuido suas possibilidades de identificação com alguma tribo que não fosse religiosa.

Eu continuo assumindo o não olhar pelo retrovisor da História. O futuro é de um mundo global inter-racial, e as comunidades serão os nossos vizinhos ou nossos amigos de infância e adolescência. Vamos tomar um café da manhã francês, almoçar uma comida japonesa, jantar uma comida italiana, ao som de uma música brasileira, morando no Canadá. No outro dia estaremos sobre a influência de outras culturas e da criatividade advinda da mistura delas. Para mim, os alemães são o povo que mais contribue com organizações não governamentais e não o povo que um dia participou da aniquilação de meu povo. Se continuarmos olhando pelo retrovisor da História não chegaremos a paz.

Aos 52 anos, meu conceito de felicidade é: no início da manhã, ter vontade de ir ao trabalho. No fim da tarde, ter vontade de ir para casa. Quando não tenho mais vontade de ir ao trabalho, é hora de procurar um novo trabalho. Quando não tenho mais vontade de ir para casa, é hora de procurar uma nova companheira.

Espero que o testemunho e as idéias esboçadas no texto acima possam ser úteis aos que continuam a boa luta. Um abraço para quem fica...

Davi Rumel

Edmonton, março de 2007