Sunday, January 11, 2026

 

O meu David Capistrano

O meu David existe entre 1974 e 1992, por correspondência e uma curta visita entre 1993 e 1999 e no ano 2000. O meu David era Gramsciano. Toda sua atividade entre 1974 e 1984 foi no sentido de organizar um sistema de saúde inclusivo, o SUS, com acesso universal a atenção primária e emergencial, melhoria da qualidade dos hospitais públicos e com participação popular através dos conselhos de saúde.

Sua genialidade exigia oportunidades para poder influenciar a construção de um estado democrático e popular, rumo ao socialismo. Mas não de cima para baixo, por uma vanguarda que assalta ou chega ao poder por circunstâncias do momento, mas sim por um lento trabalho de organização da população de baixo para cima, a partir das cidades. Daí Bauru, e depois Santos.

Em 1992, indo para Santos de São Paulo, eu na direção, ele ao meu lado e sua mãe no banco de trás, David comenta da possibilidade de ser o próximo prefeito de Santos. Eu e sua mãe ponderamos que ele já tinha investido muitos anos e energia na construção do SUS, que ainda tinha muita coisa a ser feita e que talvez ele teria mais influência na sociedade mantendo seu perfil de médico sanitarista, continuando a atuar via Cebes e Secretaria Municipal de Santos. David respondeu que o SUS já estava delineado e devidamente municipalizado. O próximo desafio era fazer coisas semelhantes nas áreas de educação e habitação. Ser Prefeito não só seria uma oportunidade de continuar atuando no SUS, mas estender sua influência para outras áreas. Citou o PC italiano e as primeiras obras do sociólogo catalão Manoel Castells.

Já membro da direção do PT, apoia o lançamento de Telma de Souza, ex-prefeita de Santos como candidata ao Governo de São Paulo em 1994 em vez de José Dirceu, figura histórica desde a fundação do PT. David perdeu esta contenda, mas acho que sua visão de uma esquerda que construa uma nova sociedade a partir dos municípios é o que estava por trás de sua posição.  

Lula vê a possibilidade de chegar ao poder com alianças com setores do empresariado e a esquerda embarca numa mudança da sociedade brasileira a partir da conquista do governo federal e governos estaduais. Em 1995 David pede demissão da executiva nacional do PT. Não acompanhei este processo, mas me lembro de receber esta notícia através dele por nossa correspondência (já tinha imigrado para o Canada).

Mas o gênio David precisava de espaço para influenciar. Era um amigo de José Serra. Chegaram a se encontrar em Paris quando Serra ainda era um exilado político. Serra assume o Ministério da Saúde em 1998 e conta com David para a montagem do Ministério. David vai para Brasília trabalhar no Ministério para expandir as Casas de Parto no SUS pelo Brasil afora. Quando Serra encerrava suas atividades por volta da meia noite, chamava o David frequentemente para conversarem. Neste processo, em 1999, me convida para voltar ao Brasil para trabalhar no Ministério. Quando chego no início de 2000, o encontro doente e vou tentar salvá-lo (junto com Sergio Gomes) como doador do fígado que ele necessitava para sobreviver. Não deu certo.        

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