O meu David Capistrano
O meu David existe entre 1974 e 1992, por correspondência e
uma curta visita entre 1993 e 1999 e no ano 2000. O meu David era Gramsciano.
Toda sua atividade entre 1974 e 1984 foi no sentido de organizar um sistema de saúde
inclusivo, o SUS, com acesso universal a atenção primária e emergencial, melhoria
da qualidade dos hospitais públicos e com participação popular através dos
conselhos de saúde.
Sua genialidade exigia oportunidades para poder influenciar
a construção de um estado democrático e popular, rumo ao socialismo. Mas não de
cima para baixo, por uma vanguarda que assalta ou chega ao poder por circunstâncias
do momento, mas sim por um lento trabalho de organização da população de baixo
para cima, a partir das cidades. Daí Bauru, e depois Santos.
Em 1992, indo para Santos de São Paulo, eu na direção, ele
ao meu lado e sua mãe no banco de trás, David comenta da possibilidade de ser o
próximo prefeito de Santos. Eu e sua mãe ponderamos que ele já tinha investido muitos
anos e energia na construção do SUS, que ainda tinha muita coisa a ser feita e
que talvez ele teria mais influência na sociedade mantendo seu perfil de médico
sanitarista, continuando a atuar via Cebes e Secretaria Municipal de Santos. David
respondeu que o SUS já estava delineado e devidamente municipalizado. O próximo
desafio era fazer coisas semelhantes nas áreas de educação e habitação. Ser
Prefeito não só seria uma oportunidade de continuar atuando no SUS, mas
estender sua influência para outras áreas. Citou o PC italiano e as primeiras
obras do sociólogo catalão Manoel Castells.
Já membro da direção do PT, apoia o lançamento de Telma de
Souza, ex-prefeita de Santos como candidata ao Governo de São Paulo em 1994 em
vez de José Dirceu, figura histórica desde a fundação do PT. David perdeu esta
contenda, mas acho que sua visão de uma esquerda que construa uma nova
sociedade a partir dos municípios é o que estava por trás de sua posição.
Lula vê a possibilidade de chegar ao poder com alianças com
setores do empresariado e a esquerda embarca numa mudança da sociedade brasileira
a partir da conquista do governo federal e governos estaduais. Em 1995 David
pede demissão da executiva nacional do PT. Não acompanhei este processo, mas me
lembro de receber esta notícia através dele por nossa correspondência (já tinha
imigrado para o Canada).
Mas o gênio David precisava de espaço para influenciar. Era um
amigo de José Serra. Chegaram a se encontrar em Paris quando Serra ainda era um
exilado político. Serra assume o Ministério da Saúde em 1998 e conta com David para
a montagem do Ministério. David vai para Brasília trabalhar no Ministério para
expandir as Casas de Parto no SUS pelo Brasil afora. Quando Serra encerrava
suas atividades por volta da meia noite, chamava o David frequentemente para conversarem.
Neste processo, em 1999, me convida para voltar ao Brasil para trabalhar no Ministério.
Quando chego no início de 2000, o encontro doente e vou tentar salvá-lo (junto
com Sergio Gomes) como doador do fígado que ele necessitava para sobreviver.
Não deu certo.
No comments:
Post a Comment